sábado, 30 de abril de 2016

Mais um capítulo da série “coisas que nunca imaginei para minha vida”


Com certeza 2016 é o início de uma nova fase, um ano cheio de boas surpresas para não dizer sustos emocionantes. Começou no dia 6 de janeiro descobrindo a minha gravidez gemelar.
            Nesses mais de cinco meses de gestação conheci não só um novo mundo, mas uma nova Renata. Como foi importante ter decidido parar a minha loucura para vivenciar a experiência de ser uma mulher do lar, para usar o termo da moda. Uma mulher do lar que aprendeu a valorizar todas as outras que escolheram ficar em casa ou simplesmente não tiveram opção de ir ao mercado de trabalho. Eu no auge dos meus 30 e poucos anos nunca tinha considerado essa possibilidade porque na minha cabeça eu sempre estudei para ganhar o meu dinheiro, ter a minha independência e conquistar o meu espaço. Mas a vida ensinou que dinheiro pode ser compartilhado, aceitar ajuda faz parte deste meu aprendizado, e administrado de diversas formas a começar escolhendo onde gastar; independência não é sinônimo de ficar fora de casa e sim estado de espírito; e o meu espaço pode ser conquistado dentro ou fora de casa porque não importa o que eu faça o meu poder de raciocínio e as minhas indagações sempre irão me acompanhar.
            O fato de ter parado tudo o que havia conquistado no ano passado fez com que eu realmente vivenciasse algo que pode parecer do século passado – almoçar em casa com meu marido e nossa filha todos os dias; cuidar da minha família e da minha casa em tempo integral; voltar a estudar depois de 15 anos trabalhando com algo que era apaixonante. Ao juntar tudo isso, percebi que não era nada do século passado porque hoje temos a liberdade para escolher não limpar a casa e pegar um livro para ler. Cozinhar o que quisermos porque meu marido não vai achar que fui relapsa ou preguiçosa, pelo contrário ele sempre me agradece por estar aqui cuidando dos nossos bens mais preciosos – os nossos filhos, no momento os de dentro e a nossa pequena de quatro anos. Não preciso dar satisfação para sociedade pelas minhas escolhas porque elas fazem parte do meu eu, embora pelo que tem parecido a nossa sociedade precisa ainda evoluir muito em questão do respeito às escolhas e divergência de pensamentos (essa parte ficará para um próximo post).
            Toda essa introdução foi para contar a minha reação depois do susto emocionante vivenciado após mais de quatro meses da descoberta que tenho dois lindos anjinhos dentro de mim. Dia 25 de abril fui fazer mais um ultrassom para ver se os bebês estavam bem, medir os órgãos deles. Com a gravidez gemelar aprendi que parte da minha vida se tornou pública mesmo que eu não queira. Todos querem saber dos bebês, o sexo, os nomes, fez tratamento, têm casos na família, ai Meu Deus que tamanho ficará sua barriga, quando vai nascer, ah gêmeos sempre adiantam... Na sala de espera da clínica, algumas dessas curiosidades apareceram e eu disse que estava esperando um casal – Maria Isabel e João Miguel. Quando entrei para fazer o ultrassom, a médica no início do exame disse “Renata estou vendo dois peruzinhos aqui, não é um casal.” Eu, depois de 5 segundos, tem certeza doutora? Ela, com toda tranquilidade que lhe é peculiar e por isso gostei tanto dela me disse, não tenho a menor dúvida, estão bem claro que as duas genitálias são masculinas.      Passei 1h20 vendo os meus bebês sendo examinados e pensando em como contar a mudança ao meu marido, à minha filha, aos nossos pais, nossos irmãos, cunhados, tios, avós, enfim para todos que já tinham comemorado comigo a vinda de um casal.
            Filha de engenheiro que cresceu programando a vida, quem me conhece sabe disso, receber uma notícia dessas depois de já ter passado mais da metade da gestação é porque realmente eu precisava em 2016 passar por um choque de comportamento. Muitas coisas eu acredito que ainda valem a pena programar, como a parte financeira de uma casa, uma viagem, mas com filho e agora com a chegada de dois ao mesmo tempo, o importante é estar pronta para todas as mudanças que acontecem no percurso. Ao invés de cinco dias e olhos arregalados como foi com a notícia da gravidez gemelar, passei só dois! Ponto para minha maturidade e aceitação de que planejar é preciso, estar pronta para mudar a rota é essencial para uma vida mais leve!
            E os nomes? João Miguel e José Carlos. Que venham nossos anjinhos com muita saúde para alegrar as nossas vidas e deixar nossas vidas diferente de tudo que imaginamos. Afinal eles só contribuem cada dia mais para eu entender que muitas coisas que nunca imaginei para minha vida são muito melhores das que eu sonhei a vida inteira!

sábado, 12 de março de 2016

Instituto São José: 90 anos de valores, história e educação


O prédio chama atenção pelo tamanho. O espaço realmente é privilegiado. Uma infraestrutura, como poucas escolas, que permite o desenvolvimento integral de quem estuda no Instituto São José. Apesar de toda grandiosidade e  espaço maravilhoso, com certeza o que sempre marcou a minha vida escolar não foi a infraestrutura, mas sim as vivências, os valores e o carisma salesiano. O corpo docente também contribuiu para a minha formação pessoal e a forma como encarei a vida, superei os meus problemas e enxerguei o próximo em qualquer área por onde passei. Agradeço aos meus pais por terem feito muitos sacrifícios para proporcionar a melhor educação que poderia receber.
            Mesmo depois de 17 anos, me lembro das aulas, das matérias dadas, da metodologia, das experiências e das pessoas que entraram na minha vida e nunca mais saíram. São tantas memórias dentro da sala e fora dela que me enchem de alegria só de pensar: correr no redondo, brincar na casa de boneca, sentar no tapete para brincar, ouvir as histórias do Bom Dia, aulas de música com a irmã Neide, parque de areia, coroação de Nossa Senhora. Mudar para o “cumprido”, comprar lanche na cantina, entrar na capela, dançar quadrilha, pular elástico, aprender fração com um bolo de cenoura e cobertura de chocolate, amarelinha, apresentar teatro, descobrir o mundo das letras e alegria em ler os primeiros livros. Pré-adolescente, mudança para o Zezão. Novos amigos, geometria, física, química, cama elástica, Olimpíadas do Instituto, amistosos entre escolas, campeonato entre escolas salesianas, viagem para o NR, história, Renascimento, filosofia, magistério. E quem diria que eu iria trabalhar no NR como monitora por três anos e esperar setembro para poder receber os alunos do Instituto São José e os professores queridos.
            Passaram-se 16 anos e retorno para esse mundo especial que ocupa as boas lembranças da minha infância e adolescência. Dessa vez confiando a educação da minha filha de três anos. Volto justamente no ano (2015) em que comemorou o Bicentenário de Dom Bosco -- ele que veio para mudar a história dos jovens e priorizou a educação. Quando veio a Nossa Senhora Auxiliadora visitar nossa casa me emocionei porque ela coroou a minha infância e tive o privilégio de tê-la coroado enquanto estudante. Ao ver minha pequena de anjo não contive a emoção porque pra mim isso tem um significado muito grande. A festa da Família foi no mesmo dia que comecei a Faculdade de Pedagogia. Voltar ao Instituto foi a luz que eu precisava para mudar a minha vida e retornar ao mundo da educação depois de tanta experiência como jornalista.
            Hoje celebramos 90 anos do Instituto São José em uma missa especial. Especial para mim que tenho fé no poder transformador da educação para uma sociedade mais justa e fraterna. Especial para minha família que sempre confiou a nossa educação ao carisma salesiano. E especial para Sofia que foi uma das crianças escolhidas para levar rosas brancas. A escolha significou muito para nós -- fé e gratidão! Mesmo escrevendo tanto me faltam palavras para descrever a participação nesta festa tão importante para quem vivenciou 14 anos da vida neste mundo de quem construiu a sua história com foco na  educação.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Quando mais de um coração bate dentro de você



Olhos arregalados, coração acelerado, lágrimas nos olhos, risada, emoção. Medo, amor maior que o peito, ansiedade, gratidão, reviravolta, mudança e a certeza que Deus existe.
Não são apenas palavras para descrever sensações. Essas são as palavras que marcaram o início de 2016. Um ano que com certeza mudará não só a minha vida como a de todos que convivem comigo, de perto ou de longe.
Sem saber o que estava por vir fiz um post na minha página da rede social  --Feliz Ano Novo! Para que a vida seja mais leve, simples, alegre! E que os abacaxis que estão por virem sejam doces como esses que ganhei! A cada tempestade é preciso lembrar do arco-íris que colore o céu e encanta quem acredita na magia de transformar os desafios em crescimento e conquistas!
A inspiração do texto foi motivada por saber que estava gerando uma nova vida. Nosso presente de Natal, uma graça sem palavras para agradecer. Mas foi no dia 6 de janeiro que a minha vida ganhou tantos sentimentos, sensações e com certeza a maior prova que Deus nunca me abandonou. Fecho os olhos e lembro da imagem no ultrassom – ao invés de um embrião, apareceram dois. O medo em ouvir ou não o coração logo foi tomado pela emoção de ouvir dois corações batendo. Naquele segundo eu soube que nunca mais seria a mesma. A gestação começou a mostrar que as emoções com certeza seriam dobradas. De italiana emocionada passei a chorar por tudo. Chorar em ver um desconhecido no sinal pedindo trocado e eu não ter algo a oferecer. Chorar porque alguma criança no período de adaptação ficou chorando na escola, mesmo a minha filha tendo entrado feliz da vida. A lista e os exemplos são tantos que se for colocar corre o risco de chorar mais um pouco. Sem falar nos cuidados dobrados e na reação das pessoas.
Por falar em reação das pessoas, aprendi a dar a notícia de uma forma mais emocionante. Primeiro falo que estou grávida. Faço uma pausa. E só depois anuncio que são gêmeos. Observar como cada um reage virou uma das minhas diversões.
Talvez eu nunca consiga expressar a alegria, a emoção e a gratidão que sinto por receber esta bênção em gerar duas vidas. No começo tive medo, mas não passei nenhum dia sem agradecer a Deus por confiar tamanha responsabilidade. Não que agora o medo passou, porém está camuflado por tanto amor que meu peito carrega a cada dia. Ser mãe foi uma escolha minha. Tentar outro filho também. É a realização de um sonho de criança -- construir a minha família, ter a casa cheia. Descobrir com as crianças a simplicidade da vida com certeza tem sido a grande lição desde o nascimento da minha anjinha, companheira, a adorável Sofia. Mesmo sabendo e entendendo o poder da maternidade na vida da mulher, não acho que toda mulher precisa ser mãe para ser feliz porque cada um encontra a felicidade em lugares, momentos e sentimentos diferentes. Eu fiz escolhas conscientes sobre a maternidade e por isso no meu caso garante a minha realização como pessoa, como mulher.
Voltando àquele segundo de ouvir os dois corações, eu sabia que meus planos, minhas viagens mentais e o planejamento do ano estavam todos furados. Ao mesmo tempo em que a minha vida começava a se transformar totalmente, eu sentia mais do que nunca a perfeição dos planos de Deus.
A mudança começou ano passado, quando larguei tudo para ter mais tempo com a minha filha e voltei ao mundo da educação por acreditar ser o caminho para construção de uma sociedade melhor. Agora terei a oportunidade de colocar tudo isso em prática com mais dois anjinhos enviados por Deus para aumentar a família não só em tamanho, mas com certeza em amor, alegria, aprendizado e sabedoria.
Seria muito cruel acabar aqui sem mencionar que tudo isso só tem sentido porque escolhi a melhor pessoa do mundo para estar ao meu lado. Há 10 anos nos permitimos começar um relacionamento que já gerou um fruto lindo, muitas conquistas e a comunhão de nossas vidas. Que venham mais dois frutos para aquecer nossos corações, nos deixar sem dormir, de cabelos brancos e repletos de orgulho a cada novo gesto, passo e descoberta! Obrigada por acreditar na nossa história quando tudo ainda parecia um céu encoberto cheio de trovões. Mais uma vez alcançamos o arco-íris!

Realmente acredito na luz do arco-íris depois das tempestades! Que venham as mudanças e a casa cheia!

domingo, 20 de dezembro de 2015

Um reencontro especial



De repente o olhar dela estava distante, parecia que a alma não habitava mais aquele corpo. As ações eram quase que mecânicas. O sorriso não saía dos lábios porque esta era uma característica peculiar dela desde criança. O fardo estava pesado, as costas pareciam carregar o mundo. E foi assim com a alma fora do corpo que ela conseguiu se observar.
Ela percebeu que suas ações pareciam desconexas. A sua vida estava indo para um caminho diferente do que esperava e os seus sonhos pareciam confusos com desejos. Mas sonho não é um desejo? Para ela não. Desejo era algo mais fácil de ser alcançado e mudava conforme a vida caminhava. Embora os desejos de ser uma pessoa melhor e ser feliz sempre estiveram presentes. Para ela, o sonho sempre significou um projeto de vida. O sonho era a realização plena e a sensação de estar viva. O sonho não mudava conforme o clima, mas a trazia para um mundo melhor e com mais fé.
Ao se distanciar um pouco dos seus pensamentos, ela olhou para o lado e levou um susto. Quem era aquela pessoa sentada no sofá pensando? Onde estavam os sonhos daquela menina que se tornou mulher? E ela se deu conta que o seu cansaço era maior do que o normal porque ela precisava de muito mais energia para manter-se nas funções que a vida exigia do que as que ela de fato gostaria.
Ela não estava infeliz, apenas perdida. Ela não estava arrependida dos caminhos escolhidos até então, porém sabia que tinha chegado o momento de mudar a rota e buscar outro destino. Alguma coisa dentro dela dizia que era preciso marcar um reencontro. Um reencontro com quem?-- logo ela se indagou. Com o passar do tempo, percebeu que o reencontro era com ela mesma, com os seus sonhos e com a sua trajetória. Não foi uma tarefa fácil decidir qual caminho seguir, mas depois que buscou dentro de si o que a deixaria feliz no presente e no futuro a missão foi concluída. Embora deixar uma carreira consolidada pareça uma árdua decisão para ela isso foi natural. Natural como trocar de roupa ou escovar o dente? Sim, ela sabia que aquela roupa era linda e a fazia feliz, mas já estava gasta com o tempo. E por que essa história de escovar o dente? Desde criança você aprende que escovar o dente é essencial para sua saúde bucal e para quem quer continuar sorrir para vida não existe algo mais natural do que essa ação diária. Ela sabia que sua decisão teria um preço financeiro, um preço social e um preço interno em como trabalhar tudo isso sem deixar que as escolhas continuassem no processo natural. Ás vezes, a nossa mente trabalha meio na contramão para nos testar. A mesma mente, que tomou todas as decisões e agiu naturalmente a elas, consegue promover questionamentos internos inimagináveis. Nesses dias de auto sabotagem ela algumas vezes chorou, outras silenciou, mas sempre rezou e jamais perdeu a fé de promover o tão sonhado reencontro com os seus sonhos e a sua paz interior.
De repente ela olhou aquela moça sentada pensando e se reconheceu. Ela sorriu para ela, deu a mão e disse – você não está sozinha. Eu estou aqui para me reencontrar com você e buscar um novo caminho. Não precisa mais brigar com sua alma, ela está aqui prontinha para encarar os novos desafios.


quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Ex-jornalista, existe?



- Você mudou de profissão?
- Eu deixei de exercer o jornalismo como profissão e resolvi realizar um sonho antigo, o de me tornar professora. Fiz magistério, já trabalhei como monitora de acampamento e agora voltei para universidade. É uma delícia estudar aos 35 anos com toda bagagem adquirida, inclusive depois de ter feito tantas matérias sobre educação e ter acompanhado projetos interessantes de perto.
- E você não sente saudade do frio na barriga da pauta de cada dia?
- Adorava sentir esse frio na barriga. Gostava muito de ir para rua e conhecer a realidade das pessoas. Muitas vezes já tinha o texto pronto na cabeça e uma frase de alguém permitia que eu recriasse tudo. Ouvir as pessoas e me transportar ao mundo delas sempre me encantaram no jornalismo. Tenho várias histórias guardadas com carinho no coração. Escritas e publicadas são incontáveis, mas realmente algumas mudaram o meu modo de ver a vida e enxergar o outro. Parece bobagem falar isso hoje em dia onde tudo acontece dentro das redações enxutas e com tempo escasso para grandes pesquisas, mas a pauta sempre esteve e estará na rua. Pode ser na sua rua, na do vizinho ou na do outro lado do mundo. Mas a pauta está onde vivem as pessoas, onde é possível escutar e relatar a vida de quem tem muito a contar. As pessoas têm direito de reclamar, a imprensa de divulgar e cobrar uma solução. Pela minha experiência as pessoas têm muito mais coisa para contar e ensinar do que reclamar. Acredito que essa é uma falha estrutural da nossa imprensa. Com o avanço da tecnologia a sensação que fica é que todo mundo só quer reclamar. Penso que poderia ser ao contrário – destaque aos bons exemplos e um espaço de cobranças. O Brasil é rico em diversidade cultural e pessoas que na história da vida superaram obstáculos. São tantos relatos de superação que talvez nenhum CEO tenha essa habilidade em vencer com tão pouco recurso como muitos brasileiros venceram. Gosto de citar sempre a Eliane Brum. Uma jornalista que não deixou de exercer a profissão. Busca nuances diferentes para o que é martelado diariamente. Enxerga o ser humano com suas riquezas e mazelas, nas suas pequenas conquistas ou na superação de uma vida toda.
Voltando a sua pergunta. Não sinto mais essa vontade de ter esse tipo de adrenalina diária. Fui muito feliz durante os 15 anos em que me dediquei ao jornalismo, mas um dia eu percebi que precisava mais. Eu me dei conta que meus sonhos iam além da escrita e das pautas. A minha inquietação era grande e fui buscar no meu passado a minha alegria em ensinar e ajudar na travessia do conhecimento. Hoje percebo que para me tornar a professora que eu desejo o jornalismo foi fundamental, porque me permitiu conhecer um mundo distante do que era o meu. Eu consegui me conectar com a realidade de inúmeras pessoas o que me fez entender a importância de vivenciar e conhecer o mundo do aluno para ensinar. O jornalismo me transformou e serei eternamente grata a cada pauta e cada pessoa que entrevistei, observei, fotografei e trabalhei.
- E quando perguntam a sua profissão, o que você responde?
Essa pergunta é a que eu não queria responder. Eu ainda estou no processo de transição. Já sei que não quero mais trabalhar como jornalista, mas ainda não consigo responder estudante de Pedagogia. Talvez precise ainda de mais alguns dias ou meses para desapegar totalmente. Por isso depois de tanto brincar que sou ex-jornalista, acredito que uma vez jornalista sempre jornalista -- mesmo que essa não seja mais a profissão que trará o meu sustento. Com certeza a inquietação é resquício das perguntas que sempre gostei de fazer, a mim mesma e aos outros em cada história que ia contar.


A quem interessar -- conversa realizada mentalmente durante uma das minhas caminhadas matinais.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

E se eu fosse eu de outro jeito?



Mudar. Ter paciência. Ser uma pessoa melhor. Viajar. Algumas das minhas anotações em lugares diversos ao longo desse ano. Não era em papel de pão, mas em vários bloquinhos que transitavam nas minhas bolsas – não que eu tenha 20, as quatro que eu usei ao longo desse ano sempre tinham um caderninho e uma caneta.
A música “Paciência”, do Lenine, foi escolhida a dedo para ser a música dos meus 34 anos.

“Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não para”

E foi um dia ao levar a minha filha para escola que eu me dei conta que quem precisava parar era eu. Mas como fazer isso se o mundo me acelerava e eu já não conseguia imaginar uma vida diferente? Minha alma estava inquieta e a paz parecia distante. A fé sempre me motivou a buscar o melhor de mim e das pessoas, talvez por rezar tanto que consegui enxergar e ter a coragem necessária para parar.

“Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso, faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara”

A vida é rara e eu bem sei disso. Eu que já perdi uma vida dentro de mim sei exatamente o que isso significa. E com esse presente divino que é celebrar a vida, mesmo com as cicatrizes que ganhamos ao longo dela, lembrei dos meus sonhos juvenis.  Senti o desejo de mudar algo que parecia imutável e percorrer novos caminhos porque eu precisava recusar essa pressa, essa aceleração.

“Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência”

Eu não queria mais fingir que aquilo tudo era normal, eu não queria mais fingir ter paciência, eu precisava resgatar a paz interior e buscar a cura para minha vida real.

“O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência”

E o que esperar do mundo? E o que esperar da vida? Um frio na barriga e um medo não podiam me paralisar. Eu precisava tentar, eu precisava mudar, eu precisava recalcular a minha rota e achar um novo destino.  Eu precisava ter paciência comigo e com os meus sonhos.

“Será que é tempo
Que lhe falta pra perceber?
Será que temos esse tempo
Pra perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara”

É difícil perceber que precisamos perder tempo conosco. Mais difícil que perceber, é aceitar a importância em perder esse tempo. Fica a dica para quem não assistiu ainda o Tarja Branca. O ator Domingos Montagner coloca muito bem a importância em perder tempo, em ficar quieto, em parar para não pensar em nada. Quando aceitamos essa condição do ócio na nossa vida conseguimos mudar a nossa relação com o tempo. Não precisa ficar no ócio o dia inteiro, mas alguns minutos que seja sem celular, sem computador, sem televisão faz muita diferença no dia. Eu medito muito menos do que deveria, mas busco cada vez mais colocar isso na minha rotina para perder tempo comigo diariamente.

E se alguém me contasse no final do ano passado, assim que eu tivesse completado meus 34 anos, que quando fosse fazer 35 passaria o dia em casa com minha família e não estaria trabalhando, eu com certeza iria dar uma grande gargalhada. E se alguém me contasse que um dia por decisão própria eu pararia a minha loucura e ficaria em casa por um tempo indeterminado, a minha resposta seria “jamais faria isso, não nasci para ficar cuidando da casa”. E se alguém um dia me contasse que eu voltaria para sala de aula em busca do meu sonho de adolescente, eu daria um sorriso e responderia “até que isso não seria uma má ideia, mas com certeza isso faz parte do meu passado”.


Nada como a maturidade e o tempo para mostrar que as nossas verdades, as nossas decisões são passageiras. E a graça da vida é olhar para traz e ver que ainda bem que eu mudei, penso e ajo diferente. Ainda bem que eu não tenho medo de assumir os meus erros passados e mudar as falas que não cabem mais na minha vida. Ainda bem que eu continuo sonhando e me transformando. A busca em ser uma pessoa melhor é constante. Viajar sempre. Ter mais paciência, já melhorei um bocado. Mudar, ah isso eu posso dizer que fiz e nunca terei medo de fazer apesar do frio na barriga. Chego aos 35 anos com um jeito diferente em ver o mundo e me relacionar com o tempo. Que venham mais histórias, fotos, causos, pessoas e lugares!

sábado, 21 de novembro de 2015

Descobrindo o movimento da vida



- Sabe fazer maquiagem? Imagine um balãozinho na cabeça --- Nunca soube nem passar base em mim direito.
- E um coque que fique na altura média do cabelo, não muito em cima, não muito embaixo? Outro balãozinho – Brincar de cabeleireiro só com as minhas bonecas e no cabelo da minha tia que tinha a maior paciência com as minhas mãozinhas que penteavam aquela cabeleira linda todas as férias.

Para não ficar desesperada manda logo uma mensagem à sua mãe pedindo ajuda com o cabelo, às irmãs lindas querendo todas as dicas de maquiagem. E ao mesmo tempo brigava com os pensamentos – você é capaz. Não é possível que para sua filha não consiga superar esses bloqueios de quem nunca se ligou a esse mundo cor de rosa.

Foram quatro meses de testes para atingir o coque perfeito. Foram quatro meses para entender um dom que jamais teve e conhecer um mundo que nunca fez parte do seu. Não foi apenas a estreia de quem sempre sonhou em ser bailarina (leia-se sempre para uma criança de quase quatro anos que pedia desde que começou a falar), mas a estreia do ballet na vida daquela família. A estreia dos passos delicados, do olhar focado, da busca da marcação no palco e do sorriso no rosto em dançar para vida.

Não poderia ter sido mais especial a escolha do tema. A pequena bailarina estreou dançando a história de Dom Bosco em homenagem ao bicentenário de seu nascimento. A história de quem sempre esteve na história de sua mãe; o jovem com o qual ela sempre se identificou. A estreia da pequena bailarina foi um presente para quem decidiu abraçar a missão da educação depois de anos afastada.

A dança parecia um movimento leve e sincronizado, mas no seu coração era a confirmação que a dança é o movimento da vida. É o movimento de quem está envolvido com ela, com as letras das músicas, com as cores das fantasias, com o mundo que ela apresenta para quem se deixa encantar com os gestos sincronizados e os passos leves.


A mãe foi tomada por uma emoção sem proporção ao saber que a estreia da filha era a sua estreia num mundo que jamais a pertenceu. E a superação aconteceu, o coque saiu perfeito e a maquiagem também. Ela não precisou da ajuda imaginada, só precisou do seu amor e dedicação. À mesma com a qual a filha sempre teve em aprender os passos da tão sonhada dança.

ps.: está na terceira pessoa para não sair as lágrimas do texto igual ao dessa mãe que descobriu com a filha o movimento da vida no mundo da dança!